via Ceticismo Aberto“Cirurgiões na Rússia acreditavam que iriam retirar um tumor do pulmão de um paciente de 28 anos. No entanto, eles encontraram uma planta - de cerca de 5 centímetros - crescendo no interior do órgão do paciente. O incidente ocorreu na região dos Urais, segundo o diário "Komsomolskaya Pravda". Artyom Sidorkin reclamava de dor no peito e relatava aos médicos que tossia sangue”.
[Do G1: Médicos descobrem árvore crescendo em pulmão de paciente]
A bizarra notícia está circulando por toda a rede, incluindo diversos sítios de notícias, da FOXnews à Discover Mag. Os mais sensatos reproduzem a notícia com uma boa dose de ceticismo, porque a história é um tanto inacreditável. Será mesmo verdade?
A fonte da notícia é o "Komsomolskaya Pravda". Não deve ser confundido com outras fontes russas como o Pravda ou mesmo o Pravda Online, com histórias sobre discos voadores de Saddam Hussein, mas o KP é sim um tablóide. A história poderia ser completamente inventada, ou no mínimo, imprecisa. Não consegui localizar a notícia reproduzida no sítio do KP, a fonte mais próxima é a versão em inglês no MosNews.
E, no entanto, como reproduzida no Mosnews, há a fotografia, atribuída ao KP. Médicos podem (por favor!) opinar melhor, mas se de acordo com a história, não havia um tumor e sim apenas o galho de árvore, e o paciente continua vivo, por que se removeria todo aquele tecido? Parecem bons ~10cm de pulmão (?) removidos ali. Biópsias removem tanto tecido? Simplesmente, a fotografia não parece muito coerente com a história. Que tem ainda outro problema.
No original, a notícia é enfática ao afirmar que:
“É óbvio que um galho de cinco centímetros é muito grande para ser inalado ou engolido, os médicos dizem. Eles sugerem que o paciente deve ter inalado um pequeno broto, que então começou a crescer dentro do corpo”.
Como várias pessoas já notaram, é complicado que um broto cresça sem luz. Na verdade, não é impossível: embora a planta eventualmente morra, alguns brotos sim podem crescer com pouca ou mesmo sem nenhuma luz. Japoneses cultivam brotos de feijão com pouca luz e apreciam o delicioso “moyashi” (é ótimo refogado e com um pouco de molho de soja). Detalhe: com pouca luz os brotos ficam completamente brancos. Sem nenhuma luz dentro do pulmão, é realmente difícil acreditar que um galho não só cresceria como ficaria verde como se vê na imagem.
E então, é simplesmente falso que um galho de cinco centímetros seja muito grande para ser inalado. O ótimo blog tywkiwdbi nota que há casos de objetos muito maiores (Pinos! Ferroviários!) que foram inalados, e cita pelo menos dois artigos médicos com casos que explicariam melhor o que pode ter ocorrido.
- Jackson, C. Grasses as foreign bodies in the bronchus and lung. Laryngoscope 62: 897, 1952.
- Merriam, J.C. et al. Lung disease caused by aspirated timothy-grass heads. Am. Rev. Respir. Dis. 90:947, 1964.
Neste último, crianças brincavam ao colocar o galho na boca e ver quem conseguia falar com ele por mais tempo. Cada vez que falavam, o movimento da boca empurrava o galho garganta abaixo, e a direção dos apêndices (muito como o que se vê na fotografia) impedia que eles retornassem. Uma criança deve ter ganho a brincadeira, mas também ganhou um galho no pulmão, que foi devidamente removido com uma pequena cirurgia.
Presumindo que a fantástica história do homem russo com um galho no pulmão tenha alguns elementos de verdade, tudo sugere que ele deve ter aspirado o galho (sabe-se lá como). Seja como for, ele não deve ter crescido dentro de seu pulmão.
E você pode engolir sementes com tranquilidade!
ATUALIZAÇÃO RELÂMPAGO: O Lazzeri MD como sempre ao resgate:
“Obviamente não foi uma biópsia. O paciente deve ter feito algum exame de imagem (RX ou TC) que mostrou uma lesão irregular dentro do pulmão, com algum grau de reação em seu redor. Provavelmente havia acúmulo de secreção nos alvéolos à montante (aqueles depois da obstrução). Tudo isto realmente sugere um tumor, principalmente um tumor endobrônquico (aqueles que se originam na parede dos brônquios).
Certamente indicaram cirurgia para o cara sem prosseguir com métodos de visualização direta (como a broncoscopia). O cirurgião provavelmente abriu o tórax já pensando na cirurgia curativa da lesão, palpou a região da lesão, achou uma coisa endurecida e irregular e "confirmou" a existência do tumor.
Neste caso, se existe um tumor pulmonar o tratamento é a lobectomia (retirada de todo um lobo pulmonar) ou segmentectomia (retirada de um dos segmentos pulmonares, subdivisão do lobo). E, pelo aspecto da peça, provavelmente foi o que foi feito.
Sempre que um cirurgião retira um órgão ou lesão ele *abre* a mesma com o bisturi, para se certificar que a lesão saiu. Ele provavelmente palpou o tecido pulmonar, achou a coisa endurecida, abriu e…. Temos a foto acima. :-)”
Isto é, a imagem (e a história) bem podem ser verdadeiras, pelo menos na parte em que o sujeito teve um pedaço de galho no pulmão. Agora, que deve ter sido aspirado (e não “crescido” lá dentro), e que um bom naco de seu pulmão foi removido, foi. [Obrigado, Lazzeri!]